quinta-feira, 31 de maio de 2012

Para o Meu Pai

É claro que ainda lembro
Nem precisa entrar dezembro
O dia em que te perdi
Essa saudade que não passa
Depois daquela desgraça
Foram poucas vezes em que sorri

Dói no peito de verdade
Não tem jeito essa saudade
A falta que você me faz
Muita cor perdeu seu brilho
Muita dor é a do filho
Que acabou perdendo o pai

Seu sorriso na lembrança
Minhas “birras” de criança
Já ao longe vão, eu sei
Os seus traços no meu rosto
E o arrependimento dos desgostos
Que um dia eu lhe dei

As músicas que escutava
As lições que me ensinava
Ainda trago comigo
O seu colo, seu carinho
E as piadas, Papaizinho,
O seu jeito tão amigo

Hoje sou um homem feito
Mas me negaram o direito
De poder, então, lhe contar
Da minha vida, dos meus dias
Perguntar-lhe o que faria
Se estivesse no meu lugar

Hoje, Papai, sou estrada
Vento, poeira, madrugada
Caminho torto a pisar certo
Mas fazem falta tuas censuras
E o teu apoio nas venturas
Como te queria perto!

Não se zangue se hoje choro
Nas lágrimas não me demoro
Mas de você nunca me esqueço
Amanhã hei de sorrir
E sempre firme hei de seguir
Te prometo, Papai, eu prometo


Alex Assunção Lamounier
31 de maio de 2012, 03:49 horas
São Paulo-SP

Deixe Sua Timidez Para Quando Não Estiver Comigo

Me olhe nos olhos
Olhar cor de mel
Doce, doce como seu sorriso
Mas me olhe nos olhos!
Deixe sua timidez
Para quando não estiver comigo

Me beije na boca
E me leve pro céu
Assim, assim como preciso
Mas me beije na boca!
Não é toda vez
Que posso estar contigo

Me abrace bem forte
Porque eu sou teu
Tanto, tanto, Florzinha do Lírio
Mas me abrace bem forte!
E no calor de sua tez
Me garanta abrigo

Me dê as cores que preciso
Pra andar
No mundo escuro em tons de cinza
Em que estou

Não pare nunca de brilhar
Pra mim assim
Teus olhos sempre tão repletos
De amor

Se entregue pra mim
E faça com que eu
Perca, perca o juízo
Mas se entregue pra mim!
Não é insensatez
O que lhe sussurro ao ouvido

Me queime em você
Me faça arder
Leve, me leve ao paraíso
Mas me queime em você!
E nua de timidez
Faça o que quiser comigo


Alex Assunção Lamounier
28 de maio de 2012, 21:07 horas
Guarulhos-SP

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Na Palma da Mão

Cavaleiro andante
De armas escuras
Só há de me derrotar
A irresistível doçura
Dos lábios dela

Marinheiro constante
De águas turvas
Só me permito ancorar
Na terra segura
Dos olhos dela

Cigano errante
De alma obscura
Só hei de descansar
Envolto na alvura
Do corpo dela

Destruo moinhos
Navego sozinho
E não temo o azar
– Desafio a morte!
Pois conheço o caminho
Que me faz voltar
Para junto dela

Aquela
A quem minha sorte
Confiei em guardar
Sem hesitação
De quem também trago
O nome guardado
Tão bem protegido
Nas linhas escrito
Da palma da mão

Alex Assunção Lamounier
26 de abril de 2012, 22:25 horas
Guarulhos-SP

segunda-feira, 26 de março de 2012

Afeito à Solidão

Afeito à solidão
Certo tom de melancolia
Me é constante no olhar
Silente, me empenho em buscar
Os acordes pra melodia
Que me palpita o coração

Essa ansiada canção
Em sustenidos de nostalgia
Ainda haverei de cantar
Um dia, se um dia encontrar
As notas tristeza e alegria
No braço do meu violão

Nas linhas da palma da mão
Não guardo qualquer profecia
Eu me fio é no meu caminhar
Não há quem me possa ditar
Regras que eu não quebraria
Ou leis que me prendam ao chão

Trago comigo a impressão
Que a estrela que me guia
Não me permite quedar
Inquieta em seu faiscar
Me conduz a seguir pela via
Onde ecoa, à frente, o trovão

Afeito à solidão
Companheiro da melancolia
À minha maneira de olhar
Permeia, insistente, um imaginar
Que, por vezes, a uma frase vazia
Atribui o peso de uma oração

Alex Assunção Lamounier
26 de março de 2012, 19:21 horas
São Paulo-SP/Guarulhos-SP

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os Meus Sentidos e o Corpo Dela

Com calma e atenção
Me quedo a ler o corpo dela
Meticuloso – não há pressa!
Valho-me
De todos os sentidos

O olhar observa os olhos dela
E cada contração da sua face
Na penumbra desvenda toda sua beleza
E no relevo de seu corpo pálido
– Montes, vales e planícies –
Nada me surpreende
Já que o ainda não vislumbrado
Era, por meio do visto, imaginado
Paisagem que se conhece sem ter, de fato, estado lá

Com o olfato lhe absorvo
E sua paisagem me fica mais forte na memória
Ao quadro soma-se o aroma dela
Elemento mais marcante da lembrança
Pela qual ainda haverei de me quedar em nostalgia

Provo também seu gosto lentamente
Deslizando meus lábios no corpo dela
– Coxas e barriga, seios e pescoço
E sua língua e os seus lábios –
É tão intensa quando me beija!
Sua boca tão fremente a me sugar
Num desespero que contradiz
Aquele medo que, quando calma,
Ela confessa

E os meus ouvidos permanecem tão atentos
Pois quero ouvir cada suspiro
E todo gemido que meu corpo
Conseguir arrancar do corpo dela

E sobre o tato?
Ah! Não só as mãos
Mas cada parte do meu corpo
A perceber como se mexe
O quanto é quente
Como palpita
Ao meu toque
O corpo dela

Das palavras, somente o necessário
A expressar vontades monossilábicas
Não falo
Eu a leio, a reconheço
Sinto-lhe sem discriminar sentidos
À visão misturam-se olfato, paladar, audição e tato
Observo, sinto o cheiro e o gosto dela
Já sei como é o olhar e os sons que ela faz quando se entrega
Enquanto se contorce e se contrai
Junto de mim
Sinto-lhe
E sinto seu toque
Ânsia de dois corpos em ocupar o mesmo espaço

Eu a leio
E o que lhe escrevo é um poema
Singelo e sensual
Escrito assim
Nas entrelinhas
Do corpo dela

Alex Assunção Lamounier, 25 de outubro de 2011, 02:30 horas
Londrina-PR

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sufoco

Havia corrido tanto, tanto, tanto que se esquecera do motivo. Então olhou para os lados e só então se fez notável a escuridão da rua. Era noite, noite, noite. Achou de bom grado gritar, uivar, rasgar aquele negrume silente com sua voz. No entanto, à primeira tentativa a escuridão viscosa, úmida, escorreu-lhe garganta adentro, sufocando qualquer possibilidade de abafar o silêncio...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A Oração do Assassino

Eu mato como se risca um fósforo
Como se acende uma vela
Eu apago
O brilho dos olhos
Daquele a quem se destina
Minha bala
O cão ladra alto
A retumbar o tambor
Quando ecoa o estampido
O que soa ao meu ouvido
É sinfonia
E o que arrasta o gatilho
Traz imbuído
O mesmo fervor
Dos dedos trêmulos de uma beata
Que desfia o rosário
No singelo horário
Da ave-maria
         . . .
Eu mato
Como quem reza uma prece
Eu mato
Como quem escreve um idílio
Quando a terra esmaece
No fim do dia!

Alex Assunção Lamounier
21 de setembro de 2011, 03:07 horas, Londrina-PR