Com calma e atenção
Me quedo a ler o corpo dela
Meticuloso – não há pressa!
Valho-me
De todos os sentidos
O olhar observa os olhos dela
E cada contração da sua face
Na penumbra desvenda toda sua beleza
E no relevo de seu corpo pálido
– Montes, vales e planícies –
Nada me surpreende
Já que o ainda não vislumbrado
Era, por meio do visto, imaginado
Paisagem que se conhece sem ter, de fato, estado lá
Com o olfato lhe absorvo
E sua paisagem me fica mais forte na memória
Ao quadro soma-se o aroma dela
Elemento mais marcante da lembrança
Pela qual ainda haverei de me quedar em nostalgia
Provo também seu gosto lentamente
Deslizando meus lábios no corpo dela
– Coxas e barriga, seios e pescoço
E sua língua e os seus lábios –
É tão intensa quando me beija!
Sua boca tão fremente a me sugar
Num desespero que contradiz
Aquele medo que, quando calma,
Ela confessa
E os meus ouvidos permanecem tão atentos
Pois quero ouvir cada suspiro
E todo gemido que meu corpo
Conseguir arrancar do corpo dela
E sobre o tato?
Ah! Não só as mãos
Mas cada parte do meu corpo
A perceber como se mexe
O quanto é quente
Como palpita
Ao meu toque
O corpo dela
Das palavras, somente o necessário
A expressar vontades monossilábicas
Não falo
Eu a leio, a reconheço
Sinto-lhe sem discriminar sentidos
À visão misturam-se olfato, paladar, audição e tato
Observo, sinto o cheiro e o gosto dela
Já sei como é o olhar e os sons que ela faz quando se entrega
Enquanto se contorce e se contrai
Junto de mim
Sinto-lhe
E sinto seu toque
Ânsia de dois corpos em ocupar o mesmo espaço
Eu a leio
E o que lhe escrevo é um poema
Singelo e sensual
Escrito assim
Nas entrelinhas
Do corpo dela
Alex Assunção Lamounier, 25 de outubro de 2011, 02:30 horas
Londrina-PR
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Sufoco
Havia corrido tanto, tanto, tanto que se esquecera do motivo. Então olhou para os lados e só então se fez notável a escuridão da rua. Era noite, noite, noite. Achou de bom grado gritar, uivar, rasgar aquele negrume silente com sua voz. No entanto, à primeira tentativa a escuridão viscosa, úmida, escorreu-lhe garganta adentro, sufocando qualquer possibilidade de abafar o silêncio...
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
A Oração do Assassino
Eu mato como se risca um fósforo
Como se acende uma vela
Eu apago
O brilho dos olhos
Daquele a quem se destina
Minha bala
O cão ladra alto
A retumbar o tambor
Quando ecoa o estampido
O que soa ao meu ouvido
É sinfonia
E o que arrasta o gatilho
Traz imbuído
O mesmo fervor
Dos dedos trêmulos de uma beata
Que desfia o rosário
No singelo horário
Da ave-maria
. . .
Eu mato
Como quem reza uma prece
Eu mato
Como quem escreve um idílio
Quando a terra esmaece
No fim do dia!
Alex Assunção Lamounier
21 de setembro de 2011, 03:07 horas, Londrina-PR
terça-feira, 3 de maio de 2011
Carnaval
Me traga aquele tempo, uma vez por ano, onde o final da avenida fica iluminado e os pais folgam os cuidados sobre as filhas. Onde se permite acompanhá-las por consideráveis intervalos de tempo às proximidades mais ermas, tendo por testemunha apenas o muro mal iluminado pela lâmpada oscilante de um poste. E o rapaz, aquele ali, dos mais feiosinhos, pode abraçar qualquer menina entre as mais bonitas. Sem que ninguém nunca repare.
Me traga naquela dança antiga, onde a cadência se permite “descadencear”, desencadeando as mesmas pisadas tortas no asfalto do ano passado e do outro, e do outro, e do outro. Repetindo os passos de todos os outros anos. Os mesmos passos e outros pés, porque muitos já não pisam mais por aqui.
Me traga os mesmos rostos, os de sempre, aqueles que se reconhece sem lhes conhecer os nomes. Rostos que denotam traços, apontam a linhagem. Os mesmos traços noutros rostos.
Mudam-se os pés permanecem os passos, vão-se as pessoas e os filhos lhes conservam os traços.
Assim os quero: nessa beleza estranha, bizarra, me dizendo silentes que os outros ainda estão por aí, pisando, marchando, conforme a mesma batida. Que se não posso apontá-los, posso, no entanto, senti-los, percebê-los entre os traços conhecidos, invariavelmente mulatos, a marcharem ritmadamente idênticos aos que já se foram. E sorrindo, sempre, grandes sorrisos brancos a rasgarem-lhes a cara morena.
Muitos já se foram mas, se indo, foram-se aos poucos, deixando como legado o jeito como se movimentavam e o traço nas faces dos que vieram ocupando suas posições. Quero este tempo porque chega um tempo em que a maioria já habita a cidade de Adelma de Calvino e o grupo dos que ficaram se reduz sensivelmente. O bloco, antes coeso, passa a ter vazios incômodos, doídos, entre a massa de traços e passos tão conhecidos. E pelos vazios se vão esvaindo seus significados.
Me traga, portanto, aquele tempo, onde observei pela primeira vez aqueles passos e onde os traços que se via pertenciam, para mim, às faces originais. Me remetiam, quando muito, não mais que à possibilidade de ascendências remotas, apenas conhecidas pelo falar e nunca vislumbradas de fato.
Me traga este tempo da alegria injustificada, da euforia ilusória sem razão de sê-la.
O tempo antes do tempo. Anterior à retirada prematura de alguns deste caminho, e ao tempo em que outros, por vontade própria, se fizeram retirar.
E me deixe ouvir, dançar, pular, brincar uma daquelas velhas marchinhas de carnaval... De refrão repetido indefinidas vezes. Sempre o mesmo refrão, rodando em volta da avenida.
Alex Assunção Lamounier
07 de março de 2011, 21:00 horas, São Francisco de Sales-MG
A Cidade do Esquecimento
Havia uma cidade sem placas, onde os moradores deveriam se lembrar onde ficava o açougue, a loja de roupas e a padaria. Com o tempo, no entanto, confusões começaram a surgir, pois as pessoas iam se esquecendo... Homens casados confundiam casas agrícolas e entravam em casas da luz vermelha, cuja luz não poderia ser acesa; donas de casa direcionavam-se a clubes masculinos pensando estar indo às compras; e crianças e idosos se acotovelavam nos balcões das lojas tentando identificar o que se vendia ali. É importante contar que a cidade também não tinha mais praças, porque o governo local as havia anulado, tornando-as todas iguais.
Acontece que com o tempo as pessoas foram se esquecendo também desses contratempos e assim se esqueciam de reclamar. Simplesmente iam aos lugares e, muitas vezes, até se esqueciam para onde estavam indo. Mas iam simplesmente. E se esqueceram também que elas é que haviam eleito o governante que as faziam esquecer. E se esqueceram, portanto, que haviam concordado com um sistema político idêntico ao que quase já os tinha levado à extinção como cidade certa vez. Se esqueceram de que não deveria ser possível não terem percebido que o sistema desse governante que agora os levava a esquecer era herdeiro legítimo daquele outro que quase os havia extinto. Chegaram a se esquecer até mesmo que haveria nova eleição e assim foram deixando tudo passar.
E o governante, sem renovação de votos, mas também sem opositor eleito, foi ficando no governo. E os fazendo esquecer...
Alex Assunção Lamounier
13 de fevereiro de 2011, 13:44 horas, Londrina-PR
...
Me encontre na manhã
E seja minha
Rua
Casa
Lua
E esteja nua
Seja minhas asas
Me faça voar
Planar
Me faça flutuar
Por um tempo perdido
Não esquecido
Me seja um sorriso
Um dia nublado
Presente e passado
Me desenhe o futuro
Me seja no escuro
Um rasgo, um brilho
Me faça um filho
Me seja estrela
Sorvete
Passeio de bicicleta
Não me permita esquecê-la
Me seja capim
Manga e jasmim
Cheiro de orvalho
Minha dama no baralho
Terra molhada
Meu pé na poeira da estrada
Me seja uma flor
Com espinho
Carinho
Me seja amor
Me seduza
Seja minha musa
Menina
Mulher
Seja minha amiga
Amante
Constante
E me diga
Não obstante
Sempre o que houver
O que quiser me dizer
. . .
Me partilhe uma romã
Seja meus dias
Alex Assunção Lamounier
18 de dezembro de 2010, 20:03 horas, Londrina-PR
Continua Tudo Bem, Mamãe
Por volta dos 15 anos de idade eu peguei a estrada
Deixei no portão minha mãe chorando
Ainda era madrugada
Deixava, pra vida, o sertão das Gerais
Meu pai, do lado, me dizia:
“Aqui lhe deixo, meu filho,
Pise firme e não olhe pra trás”.
Hoje marco com as botas
O asfalto da cidade
Muitos pecados nas costas
Mas nenhuma atrocidade
Terra diversa da minha
Mesmo assim rasgo no peito
Vou rompendo o dia-a-dia
Faço valer o meu jeito
Mas continua tudo bem, Mamãe
Vez em quando mando notícias
Me reze sempre uma oração
Pra manter justo o coração
Mas nunca perder a malícia
E continua tudo bem, Mamãe
Ainda sou um cara esperto
Me garanto bem sozinho
E em meu caminho
Eu piso certo
Aqui quase não há poeira
É fuligem no meu chapéu
Estranho sobremaneira
É a cor cinza desse céu
Mas conheci gente direita
Que também tem bons preceitos
Que reconhece e respeita
Quem caleja as mãos no eito
Mas continua tudo bem, Mamãe
Não esqueci meu sobrenome
Embora pise em terra estranha
Levo em conta tamanha
Minha palavra de homem
E continua tudo bem, Mamãe
Ainda sou um cara esperto
Me garanto bem sozinho
E em meu caminho
Eu piso certo
Passei por muitos lugares
E passaram tantos janeiros
Tomei diferentes ares
Desde o Triângulo Mineiro
Há cicatrizes no meu rosto
E rugas de preocupação
Mas guardo sempre meus desgostos
Que me sirvam de lição
Mas continua tudo bem, Mamãe
Enquanto me mantiver esperto
Me garantir bem sozinho
E em meu caminho
Eu pisar certo
E continua tudo bem, Mamãe
Ainda sou um cara esperto
Me garanto bem sozinho
E em meu caminho
Eu piso certo
Alex Assunção Lamounier
22 de setembro de 2009, 13:57 horas, Presidente Prudente – SP
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