terça-feira, 3 de maio de 2011

Carnaval


Me traga aquele tempo, uma vez por ano, onde o final da avenida fica iluminado e os pais folgam os cuidados sobre as filhas. Onde se permite acompanhá-las por consideráveis intervalos de tempo às proximidades mais ermas, tendo por testemunha apenas o muro mal iluminado pela lâmpada oscilante de um poste. E o rapaz, aquele ali, dos mais feiosinhos, pode abraçar qualquer menina entre as mais bonitas. Sem que ninguém nunca repare.
Me traga naquela dança antiga, onde a cadência se permite “descadencear”, desencadeando as mesmas pisadas tortas no asfalto do ano passado e do outro, e do outro, e do outro. Repetindo os passos de todos os outros anos. Os mesmos passos e outros pés, porque muitos já não pisam mais por aqui.
Me traga os mesmos rostos, os de sempre, aqueles que se reconhece sem lhes conhecer os nomes. Rostos que denotam traços, apontam a linhagem. Os mesmos traços noutros rostos.
Mudam-se os pés permanecem os passos, vão-se as pessoas e os filhos lhes conservam os traços.
Assim os quero: nessa beleza estranha, bizarra, me dizendo silentes que os outros ainda estão por aí, pisando, marchando, conforme a mesma batida. Que se não posso apontá-los, posso, no entanto, senti-los, percebê-los entre os traços conhecidos, invariavelmente mulatos, a marcharem ritmadamente idênticos aos que já se foram. E sorrindo, sempre, grandes sorrisos brancos a rasgarem-lhes a cara morena.
Muitos já se foram mas, se indo, foram-se aos poucos, deixando como legado o jeito como se movimentavam e o traço nas faces dos que vieram ocupando suas posições. Quero este tempo porque chega um tempo em que a maioria já habita a cidade de Adelma de Calvino e o grupo dos que ficaram se reduz sensivelmente. O bloco, antes coeso, passa a ter vazios incômodos, doídos, entre a massa de traços e passos tão conhecidos. E pelos vazios se vão esvaindo seus significados.
Me traga, portanto, aquele tempo, onde observei pela primeira vez aqueles passos e onde os traços que se via pertenciam, para mim, às faces originais. Me remetiam, quando muito, não mais que à possibilidade de ascendências remotas, apenas conhecidas pelo falar e nunca vislumbradas de fato.
Me traga este tempo da alegria injustificada, da euforia ilusória sem razão de sê-la.
O tempo antes do tempo. Anterior à retirada prematura de alguns deste caminho, e ao tempo em que outros, por vontade própria, se fizeram retirar.
E me deixe ouvir, dançar, pular, brincar uma daquelas velhas marchinhas de carnaval... De refrão repetido indefinidas vezes. Sempre o mesmo refrão, rodando em volta da avenida.

Alex Assunção Lamounier
07 de março de 2011, 21:00 horas, São Francisco de Sales-MG

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