terça-feira, 3 de maio de 2011

Poema de Amor e de Lembranças


Era a moça mais linda que já se vira por estes lados, meu patrão, se bem que por aqui nunca se tenha visto uma só mulher bonita. Mas esta o era e era a mais formosa com seus quadris provocantes e suas pernas roliças, com seu jeito de criança tímida e ares de mulher que faziam-na tão bela que, mesmo sem que nossos olhos conhecessem a beleza, podíamos sentir que ela o era e era a única, a mulher mais bela deste mundo e dos demais mundos que possam ter existido ou que venham a existir conforme tamanha seja a bondade de Deus nosso Senhor. De uns olhos de capim escuro que se derramavam sobre nós como água de rio que corre entre mata densa, protegidos pelos belos cílios e as sobrancelhas retas, apenas levemente arqueadas, de uma face pálida que contrastava com o vermelho forte dos lábios e os cabelos que derramavam em cachos dos quais não sei definir a cor sobre os ombros e o colo dos seios tão bem formados. Ela e seu companheiro sempre tão juntos, os dois com seus ares de comunista, sempre tão belos, embora a esperança dele, percebia-se, mesmo nós, pobres bêbados, que vinha dela, que sem ela a chama dele não passaria de um chumaço de algodão rescendendo a querosene, nada mais que um curto e queimado pavio de lamparina ou vela apagada, desmanchada em espermacete. Pois assim o eram, meu bom patrão, os mais ardentes, os cúmplices mais fiéis, a mais bonita parelha desta vida, a nos queimar também a vista com sua proximidade, embora sempre se notasse que a beleza dele era dela que vinha, que suas roupas finas e o sorriso constante eram por causa dela que haviam, dela, que lhe parecia ter recuperado a vaidade.
Saíam os dois tão bem arrumados, tão chiques que nem a mais rica criatura desta terra não se equiparava a eles, visto que nenhum gosto no vestir-se assemelhar-se-ia ao deles. Pois saíam assim tão elegantes e se divertiam a assistir essas peças baratas, porque era nos teatros pobres ou nas praças que mais se divertiam. E aplaudiam a cultura popular que, como o senhor mesmo o sabe, é o presente maior que Deus permitira aos filhos menos abastados. E abraçavam elogiando os artistas que não tinham sequer uma boa cama para descansarem os ossos.
Em seguida vinham a estes botecos, meu caro senhor, a estes bares sujos e infectos de miséria, dignos apenas da nossa presença, meu nobre homem, bêbados inválidos e imundos. Vinham cantando quando entravam por aquela porta, sorrindo, e se divertiam jogando sinuca nessa mesa gasta de bilhar, se beijavam e se amassavam no balcão, tomando do mesmo vinho barato que nós, e se embriagavam em nossas canecas encardidas e ouviam nossas estórias recheando nossa desgraça com vistosas gargalhadas quando, então, nos beijavam a face imunda, acariciando-nos os olhos remelentos e a barba mal-feita, saindo no romper da aurora abraçados, com os últimos respingos da chuva, apaixonados, embriagando-se ainda mais um no outro, deixando-nos a sós com a nossa triste certeza de nada mais que velhos bêbados ainda maior que antes de sua chegada, para que fossem fazer o que os jovens casais desta e daquela época nunca se enjoaram de fazer, pois eram belos, amantes e apaixonados.

Alex Assunção Lamounier
20 de março de 2000, Londrina-PR

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