quinta-feira, 26 de abril de 2012

Na Palma da Mão

Cavaleiro andante
De armas escuras
Só há de me derrotar
A irresistível doçura
Dos lábios dela

Marinheiro constante
De águas turvas
Só me permito ancorar
Na terra segura
Dos olhos dela

Cigano errante
De alma obscura
Só hei de descansar
Envolto na alvura
Do corpo dela

Destruo moinhos
Navego sozinho
E não temo o azar
– Desafio a morte!
Pois conheço o caminho
Que me faz voltar
Para junto dela

Aquela
A quem minha sorte
Confiei em guardar
Sem hesitação
De quem também trago
O nome guardado
Tão bem protegido
Nas linhas escrito
Da palma da mão

Alex Assunção Lamounier
26 de abril de 2012, 22:25 horas
Guarulhos-SP

segunda-feira, 26 de março de 2012

Afeito à Solidão

Afeito à solidão
Certo tom de melancolia
Me é constante no olhar
Silente, me empenho em buscar
Os acordes pra melodia
Que me palpita o coração

Essa ansiada canção
Em sustenidos de nostalgia
Ainda haverei de cantar
Um dia, se um dia encontrar
As notas tristeza e alegria
No braço do meu violão

Nas linhas da palma da mão
Não guardo qualquer profecia
Eu me fio é no meu caminhar
Não há quem me possa ditar
Regras que eu não quebraria
Ou leis que me prendam ao chão

Trago comigo a impressão
Que a estrela que me guia
Não me permite quedar
Inquieta em seu faiscar
Me conduz a seguir pela via
Onde ecoa, à frente, o trovão

Afeito à solidão
Companheiro da melancolia
À minha maneira de olhar
Permeia, insistente, um imaginar
Que, por vezes, a uma frase vazia
Atribui o peso de uma oração

Alex Assunção Lamounier
26 de março de 2012, 19:21 horas
São Paulo-SP/Guarulhos-SP

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os Meus Sentidos e o Corpo Dela

Com calma e atenção
Me quedo a ler o corpo dela
Meticuloso – não há pressa!
Valho-me
De todos os sentidos

O olhar observa os olhos dela
E cada contração da sua face
Na penumbra desvenda toda sua beleza
E no relevo de seu corpo pálido
– Montes, vales e planícies –
Nada me surpreende
Já que o ainda não vislumbrado
Era, por meio do visto, imaginado
Paisagem que se conhece sem ter, de fato, estado lá

Com o olfato lhe absorvo
E sua paisagem me fica mais forte na memória
Ao quadro soma-se o aroma dela
Elemento mais marcante da lembrança
Pela qual ainda haverei de me quedar em nostalgia

Provo também seu gosto lentamente
Deslizando meus lábios no corpo dela
– Coxas e barriga, seios e pescoço
E sua língua e os seus lábios –
É tão intensa quando me beija!
Sua boca tão fremente a me sugar
Num desespero que contradiz
Aquele medo que, quando calma,
Ela confessa

E os meus ouvidos permanecem tão atentos
Pois quero ouvir cada suspiro
E todo gemido que meu corpo
Conseguir arrancar do corpo dela

E sobre o tato?
Ah! Não só as mãos
Mas cada parte do meu corpo
A perceber como se mexe
O quanto é quente
Como palpita
Ao meu toque
O corpo dela

Das palavras, somente o necessário
A expressar vontades monossilábicas
Não falo
Eu a leio, a reconheço
Sinto-lhe sem discriminar sentidos
À visão misturam-se olfato, paladar, audição e tato
Observo, sinto o cheiro e o gosto dela
Já sei como é o olhar e os sons que ela faz quando se entrega
Enquanto se contorce e se contrai
Junto de mim
Sinto-lhe
E sinto seu toque
Ânsia de dois corpos em ocupar o mesmo espaço

Eu a leio
E o que lhe escrevo é um poema
Singelo e sensual
Escrito assim
Nas entrelinhas
Do corpo dela

Alex Assunção Lamounier, 25 de outubro de 2011, 02:30 horas
Londrina-PR

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sufoco

Havia corrido tanto, tanto, tanto que se esquecera do motivo. Então olhou para os lados e só então se fez notável a escuridão da rua. Era noite, noite, noite. Achou de bom grado gritar, uivar, rasgar aquele negrume silente com sua voz. No entanto, à primeira tentativa a escuridão viscosa, úmida, escorreu-lhe garganta adentro, sufocando qualquer possibilidade de abafar o silêncio...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A Oração do Assassino

Eu mato como se risca um fósforo
Como se acende uma vela
Eu apago
O brilho dos olhos
Daquele a quem se destina
Minha bala
O cão ladra alto
A retumbar o tambor
Quando ecoa o estampido
O que soa ao meu ouvido
É sinfonia
E o que arrasta o gatilho
Traz imbuído
O mesmo fervor
Dos dedos trêmulos de uma beata
Que desfia o rosário
No singelo horário
Da ave-maria
         . . .
Eu mato
Como quem reza uma prece
Eu mato
Como quem escreve um idílio
Quando a terra esmaece
No fim do dia!

Alex Assunção Lamounier
21 de setembro de 2011, 03:07 horas, Londrina-PR

terça-feira, 3 de maio de 2011

Carnaval


Me traga aquele tempo, uma vez por ano, onde o final da avenida fica iluminado e os pais folgam os cuidados sobre as filhas. Onde se permite acompanhá-las por consideráveis intervalos de tempo às proximidades mais ermas, tendo por testemunha apenas o muro mal iluminado pela lâmpada oscilante de um poste. E o rapaz, aquele ali, dos mais feiosinhos, pode abraçar qualquer menina entre as mais bonitas. Sem que ninguém nunca repare.
Me traga naquela dança antiga, onde a cadência se permite “descadencear”, desencadeando as mesmas pisadas tortas no asfalto do ano passado e do outro, e do outro, e do outro. Repetindo os passos de todos os outros anos. Os mesmos passos e outros pés, porque muitos já não pisam mais por aqui.
Me traga os mesmos rostos, os de sempre, aqueles que se reconhece sem lhes conhecer os nomes. Rostos que denotam traços, apontam a linhagem. Os mesmos traços noutros rostos.
Mudam-se os pés permanecem os passos, vão-se as pessoas e os filhos lhes conservam os traços.
Assim os quero: nessa beleza estranha, bizarra, me dizendo silentes que os outros ainda estão por aí, pisando, marchando, conforme a mesma batida. Que se não posso apontá-los, posso, no entanto, senti-los, percebê-los entre os traços conhecidos, invariavelmente mulatos, a marcharem ritmadamente idênticos aos que já se foram. E sorrindo, sempre, grandes sorrisos brancos a rasgarem-lhes a cara morena.
Muitos já se foram mas, se indo, foram-se aos poucos, deixando como legado o jeito como se movimentavam e o traço nas faces dos que vieram ocupando suas posições. Quero este tempo porque chega um tempo em que a maioria já habita a cidade de Adelma de Calvino e o grupo dos que ficaram se reduz sensivelmente. O bloco, antes coeso, passa a ter vazios incômodos, doídos, entre a massa de traços e passos tão conhecidos. E pelos vazios se vão esvaindo seus significados.
Me traga, portanto, aquele tempo, onde observei pela primeira vez aqueles passos e onde os traços que se via pertenciam, para mim, às faces originais. Me remetiam, quando muito, não mais que à possibilidade de ascendências remotas, apenas conhecidas pelo falar e nunca vislumbradas de fato.
Me traga este tempo da alegria injustificada, da euforia ilusória sem razão de sê-la.
O tempo antes do tempo. Anterior à retirada prematura de alguns deste caminho, e ao tempo em que outros, por vontade própria, se fizeram retirar.
E me deixe ouvir, dançar, pular, brincar uma daquelas velhas marchinhas de carnaval... De refrão repetido indefinidas vezes. Sempre o mesmo refrão, rodando em volta da avenida.

Alex Assunção Lamounier
07 de março de 2011, 21:00 horas, São Francisco de Sales-MG

A Cidade do Esquecimento


Havia uma cidade sem placas, onde os moradores deveriam se lembrar onde ficava o açougue, a loja de roupas e a padaria. Com o tempo, no entanto, confusões começaram a surgir, pois as pessoas iam se esquecendo... Homens casados confundiam casas agrícolas e entravam em casas da luz vermelha, cuja luz não poderia ser acesa; donas de casa direcionavam-se a clubes masculinos pensando estar indo às compras; e crianças e idosos se acotovelavam nos balcões das lojas tentando identificar o que se vendia ali. É importante contar que a cidade também não tinha mais praças, porque o governo local as havia anulado, tornando-as todas iguais.
Acontece que com o tempo as pessoas foram se esquecendo também desses contratempos e assim se esqueciam de reclamar. Simplesmente iam aos lugares e, muitas vezes, até se esqueciam para onde estavam indo. Mas iam simplesmente. E se esqueceram também que elas é que haviam eleito o governante que as faziam esquecer. E se esqueceram, portanto, que haviam concordado com um sistema político idêntico ao que quase já os tinha levado à extinção como cidade certa vez. Se esqueceram de que não deveria ser possível não terem percebido que o sistema desse governante que agora os levava a esquecer era herdeiro legítimo daquele outro que quase os havia extinto. Chegaram a se esquecer até mesmo que haveria nova eleição e assim foram deixando tudo passar.
E o governante, sem renovação de votos, mas também sem opositor eleito, foi ficando no governo. E os fazendo esquecer...

Alex Assunção Lamounier
13 de fevereiro de 2011, 13:44 horas, Londrina-PR